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Como o RS se prepara para a nova realidade de desastres naturais e o que indicam especialistas em prevenção

G1
08 de Setembro de 2026 às 14:28
6 min de leitura
Como o RS se prepara para a nova realidade de desastres naturais e o que indicam especialistas em prevenção

RS tenta se preparar para novos eventos extremos, mas enfrenta desafios na prevenção Os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção no Rio Grande do Sul. Após enfrentar enchentes históricas, temporais, vendavais e até tornados nos últimos anos, o estado vive uma nova realidade marcada pelo aumento da frequência e da intensidade dos desastres naturais. Agora, a previsão de um El Niño de forte intensidade reacende o alerta para chuvas volumosas e risco de novas inundações. Segundo o climatologista Carlos Nobre, embora não seja possível prever com precisão os eventos meteorológicos de longo prazo, há consenso de que o fenômeno climático deve ganhar força a partir de setembro, com impactos mais expressivos entre outubro e janeiro. "O que a gente sabe é que o El Niño atingirá uma intensidade muito forte a partir de setembro, com impacto muito grande em outubro, novembro, dezembro e janeiro. Então tem que estar muito preparado para todos esses meses", afirma. Fragilidades na prevenção A preocupação é reforçada por um diagnóstico realizado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) após as enchentes de 2024. Na época, o levantamento apontou deficiências importantes na capacidade de prevenção dos municípios gaúchos. Dos 497 municípios gaúchos, 215 possuíam plano de contingência desatualizados. Além disso, 175 cidades relataram não possuir estrutura adequada para ações de prevenção e resposta a desastres. O auditor do TCE Everton do Amaral Padilha, responsável pelo estudo, destaca que muitos municípios não conheciam adequadamente suas áreas de risco. Outro problema identificado foi a baixa disseminação da cultura de prevenção. "Muitos municípios não tinham mapeamento de áreas de risco. A maioria não sabia quais eram os locais que poderiam enfrentar problemas em caso de desastre", afirma. "A grande maioria não trabalhava a educação da comunidade nem dos próprios agentes. Se a população não está preparada para enfrentar o desastre, os danos humanos acabam sendo potencializados", acrescenta. Atualmente, segundo o Tribunal de Contas, os 497 municípios gaúchos afirmam possuir planos de contingência. Mas especialistas alertam que a existência do documento, por si só, não resolve o problema. "O quanto desse plano foi levado ao conhecimento da sociedade? Não adianta ter um plano aderente às normas se a comunidade não sabe qual abrigo procurar ou qual rota de fuga utilizar. A população também precisa estar preparada", ressalta o auditor. Mais de 740 mil pessoas vivem em áreas de risco Dados do Serviço Geológico do Brasil indicam que mais de 740 mil gaúchos ainda vivem em áreas suscetíveis a deslizamentos, enchentes e inundações. Para Carlos Nobre, além das medidas emergenciais, será necessário desenvolver políticas permanentes para reduzir a exposição da população aos riscos climáticos. "O Rio Grande do Sul precisa ter uma política de médio prazo para remover dezenas de milhares de pessoas que vivem em áreas de altíssimo risco", defende. Porto Alegre reforça monitoramento Na capital gaúcha, uma série de investimentos busca ampliar a capacidade de resposta a eventos climáticos severos. Na nova sede da Defesa Civil, meteorologistas, hidrólogos e geólogos monitoram as condições do tempo 24 horas por dia. Sensores espalhados por diferentes regiões da cidade permitem emitir alertas mais específicos para cada área. Segundo o coordenador do Centro de Monitoramento e Alertas da Defesa Civil de Porto Alegre, Marcos Vinícius Gonçalves Oliveira, essa regionalização melhora significativamente a capacidade de prevenção. "Conseguimos identificar quais são os problemas advindos de determinado fenômeno em cada região da cidade. Já tivemos situações em que os alertas foram emitidos apenas para a costa de Porto Alegre e outras em que os ventos atingiram apenas o extremo sul", explica. Obras avançam no sistema de proteção contra cheias Uma das principais frentes de trabalho está concentrada no sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre. No bairro Sarandi, na Zona Norte, parte do dique já foi elevada para a cota de 5,8 metros. A área que durante a enchente de 2024 foi ocupada pelas primeiras casas atingidas pelo transbordamento do arroio está sendo liberada para continuidade das obras. Moradores, no entanto, ainda convivem com a insegurança. "Todo mundo está com medo. Tem gente que foi embora, tem gente que voltou. Quando a chuva vem, o medo volta junto", relata o comerciante Clóvis Altair. Além das obras nos diques, o sistema ganhou novos equipamentos de monitoramento. Sensores instalados nas casas de bombas acompanham em tempo real o nível da água e enviam informações para um centro de controle operacional. Ao todo, 23 estações de bombeamento integram a rede que ajuda a reduzir o risco de alagamentos nas áreas mais vulneráveis da capital gaúcha. O sistema também recebeu geradores e redes exclusivas de energia para garantir o funcionamento das bombas em caso de interrupção no fornecimento elétrico. As comportas foram modernizadas e substituídas. Atualmente, oito permanecem fechadas e duas seguem abertas para circulação de veículos. Pontos críticos recebem reforço Especialistas apontavam a região próxima aos trilhos da Trensurb como um dos pontos mais vulneráveis do sistema de proteção da capital. Segundo o professor Fernando Dornelles, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, o local exigia reforços para impedir a passagem da água durante grandes cheias. No fim de agosto, foi concluída a instalação de novas comportas na região. A obra incluiu ainda a construção de um dique de cerca de 100 metros entre o Arroio Passo das Pedras e o Rio Gravataí. A expectativa é reduzir o risco de alagamentos na Zona Norte e minimizar impactos sobre estruturas estratégicas, como o Aeroporto Salgado Filho. Aeroporto amplia plano de contingência Após ficar fechado durante meses em razão da enchente de 2024, o Aeroporto Salgado Filho também passou por uma série de adaptações. Além de obras na pista e reforços estruturais, a administração implementou novos protocolos de resposta para eventos extremos. Segundo o diretor de Infraestrutura e Manutenção da Fraport, Cássio Dias Gonçalves, o aeroporto trabalha com quatro níveis de contingência e equipes treinadas para diferentes cenários. "O nível de segurança que nós temos hoje, principalmente em relação ao sistema de proteção contra cheias do município, está bem melhor do que em 2024", afirma. O terminal também conta com um sistema interno de drenagem formado por cinco grandes bacias, além de bombas e equipamentos de resposta rápida destinados a controlar o acúmulo de água. Ruas alagadas em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre (RS), na noite desta nesta segunda-feira (6) Reuters/Amanda Perobelli VÍDEOS: Tudo sobre o RS
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