g1 20 anos: da universidade pública à pesquisa com o Hubble, a trajetória da astrônoma brasileira Duília de Mello
Duília de Mello: a brasileira que ajuda a desvendar os mistérios do Universo Quando o g1 nasceu, há quase 20 anos, o Telescópio Espacial Hubble já estava em órbita havia mais de uma década. Desde então, novos observatórios passaram a enxergar regiões cada vez mais distantes do Universo. Na astronomia, essa distância também significa olhar para trás no tempo: a luz de estrelas e galáxias muito distantes pode levar bilhões de anos para chegar até a Terra. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia “Telescópios são máquinas do tempo, porque conseguem ver bem a fundo, bem profundo. A gente vê objetos bem distantes, e a luz demora para chegar aqui. Então, quando chega, a gente está vendo o passado”, explica a astrônoma brasileira Duília de Mello. Foi investigando esse passado que Duília construiu boa parte da carreira. Ela participou de projetos ligados ao Hubble e de pesquisas sobre como estrelas e galáxias surgem e mudam ao longo de bilhões de anos. Mas a sua trajetória começou bem antes disso, no Rio de Janeiro. Ainda criança, Duília gostava de ficção científica, olhava para o céu e fazia perguntas sobre o espaço. Na época, antes da internet, encontrar respostas não era tão simples. “Foi aquela curiosidade de criança que me despertou uma grande vontade de entender mais e de estudar a fundo para virar aquela pessoa que entende para explicar aos outros”, conta. LEIA TAMBÉM: Astronauta da Nasa flagra fenômeno luminoso raro durante tempestade vista do espaço; entenda Em fenômeno inédito, cientistas descobrem planeta que acelera sua própria destruição; entenda O teste de DNA em osso que pode reescrever a história do Egito antigo A astrônoma brasileira Duília de Mello durante apresentação na Universidade Católica da América, em Washington, nos Estados Unidos. João Pedro de Mello Domingues/Wikimedia Commons A família não tinha ligação com astronomia. O pai não havia concluído o antigo ginásio e preferia que ela seguisse uma profissão mais tradicional. A mãe queria que os filhos estudassem, mas também se preocupava com o futuro profissional da filha. Quando Duília tinha cerca de 16 anos, as duas pegaram um ônibus no subúrbio do Rio para conhecer o Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A visita acabou reforçando a decisão. “Eu me enxergava um dia professora da UFRJ. Falei para a minha mãe: ‘Eu vou virar uma professora da UFRJ’. Era essa a ideia”, lembra. Duília cursou Astronomia na UFRJ, fez mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Ela diz que as bolsas de estudo foram decisivas para conseguir seguir na carreira. Ainda na graduação, uma bolsa de iniciação científica ajudou inclusive a pagar seu primeiro curso de inglês. Depois vieram bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado. “Eu sou muito grata pelo ensino público brasileiro. Tudo que eu sei da vida eu aprendi na UFRJ, no Inpe e na USP”, afirma. LEIA TAMBÉM: Espécie achada em esterco de gado pode explicar a origem do 'cogumelo mágico' mais cultivado do mundo Cientistas encontram fóssil de tiranossauro gigante que pode ser parente antigo do T. rex Estudos sugerem que o Sol 'fugiu' do centro da Via Láctea junto com estrelas gêmeas As “bolhas azuis”, grupos de estrelas jovens identificados pelo telescópio Hubble entre as galáxias M81, M82 e NGC 3077, a cerca de 12 milhões de anos-luz da Terra. NASA/ESA/HST/STScI/Wikimedia Em 1997, durante observações no Chile, Duília fez uma das descobertas mais marcantes de sua trajetória: identificou a supernova 1997D, resultado da explosão de uma estrela. Para ela, o episódio teve um peso que foi além da publicação científica. “Tinha virado rotina ser astrônoma para mim. Isso é ruim, porque, quando vira rotina, perde o encantamento. Quando descobri a supernova, notei que era realmente esse sentimento, esse processo da descoberta, que tinha me levado a ser astrônoma”, conta. Anos depois, ela também participou da descoberta das chamadas “bolhas azuis”, grupos de estrelas jovens encontrados fora de galáxias, em regiões onde os astrônomos não esperavam encontrar formação estelar. Outro trabalho envolveu a NGC 6872, apelidada de Galáxia do Condor. A galáxia espiral chamou atenção pelo tamanho: segundo Duília, as medições indicaram uma extensão equivalente a cerca de cinco vezes a da Via Láctea. Esses trabalhos fazem parte de uma mesma linha de pesquisa: entender como as galáxias se formam, como interagem umas com as outras e como os elementos químicos se espalham pelo Universo. Duília explica que esse processo também ajuda a investigar uma pergunta mais próxima de nós: como surgiram os elementos que, bilhões de anos depois, permitiram a formação de planetas como a Terra. LEIA TAMBÉM: Super El Niño pode estar entre os mais intensos já registrados; veja o que esperar 'Ao me ver, chore': A história por trás das 'pedras da fome' da Europa ANTES E DEPOIS: imagens de satélite mostram efeitos da seca extrema na Europa Localização da Supernova 1997D, descoberta por Duília de Mello em 1997 durante observações no Chile. Reprodução O que ainda falta descobrir Depois de passar anos dividindo a pesquisa com cargos de gestão acadêmica nos Estados Unidos, Duília está voltando a se dedicar integralmente à astronomia. Um dos seus próximos projetos vai usar dados do Telescópio Espacial James Webb para estudar galáxias observadas quando o Universo ainda era muito mais jovem. A ideia é analisar como a composição química dessas estruturas mudou ao longo de bilhões de anos. Apesar dos avanços de telescópios como Hubble e Webb, algumas das perguntas mais importantes da astronomia continuam abertas. Duília cita a matéria escura e a energia escura entre os principais enigmas. A ciência consegue observar seus efeitos no Universo, mas ainda não sabe exatamente do que são feitas. “Falta muita coisa. Acho que os enigmas mesmo são matéria escura e energia escura. A energia escura parece ser o maior componente do Universo, e a gente não tem a mínima ideia do que é feito”, afirma. Outra pergunta permanece sem resposta: existe vida fora da Terra? Duília acredita que a ciência pode estar perto de encontrar planetas com condições compatíveis com a existência de vida, mas ressalta que isso é diferente de encontrar organismos ou estabelecer contato com seres extraterrestres. “Acho que a gente está prestes a encontrar [sinais da] possibilidade de vida. Mas uma coisa é encontrar possibilidade de vida e outra coisa é ter contato com vida extraterrestre”, diz. Hoje, ela continua trabalhando justamente em algumas dessas questões, agora com instrumentos capazes de observar regiões do Universo que eram inacessíveis quando iniciou a carreira. Para Duília, ainda há muito a descobrir — das primeiras galáxias à natureza da matéria e da energia escuras, passando pela busca por outros mundos que possam reunir condições para a vida. Fotógrafo do RS faz imagem incrível de cometa 'mais brilhante do ano'
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