Projeto oferece aulas gratuitas para adultos e idosos aprenderem a ler no RN; 'Autonomia', diz professora
Aluna Joenilde Nunes durante aula Divulgação O potiguar Antônio Francisco de Paiva cresceu em uma família que dependia do trabalho no campo e, por isso, não teve a oportunidade de frequentar a escola como gostaria. Aos 59 anos, ele busca mudar essa história. “Minha mãe me matriculava, mas meu pai descobria e proibia porque dizia que, para trabalhar na roça, a caneta que a gente precisava era uma enxada”, conta. 📳 Clique aqui para seguir o canal do g1 RN no WhatsApp Antônio é um dos alunos de um programa em Natal que oferece aulas gratuitas para pessoas que desejam ler e escrever ou aprimorar conhecimentos que não conseguiram desenvolver no início da vida. O Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos é promovido pelo Instituto Yduqs em parceria com a Estácio na capital potiguar. Para concorrer a uma vaga no curso, é preciso preencher um formulário no site o instituto. Nesta terça (8) é comemorado o Dia Mundial da Alfabetização. Analfabetismo no Brasil cai para 4,9% e atinge menor taxa de série histórica, diz IBGE 👉 No Rio Grande do Norte, a taxa de analfabetismo no Rio Grande do Norte caiu para 9,3%, o menor índice da série histórica, segundo a última Pnad Contínua, realizada em 2025 pelo IBGE. Essa é a primeira vez que o indicador do estado fica abaixo de 10%. 👉 Entretanto, apesar da redução, o analfabetismo continua atingindo, principalmente, a população mais velha. No Brasil, pessoas com 60 anos ou mais representam 58% da população que não sabe ler e escrever. O cenário apresentado pela pesquisa evidencia a importância de ampliar as oportunidades de acesso ao ensino após a idade regular. É nesse contexto que iniciativas voltadas à alfabetização após os 18 anos ganham espaço. Para Jeanne Maciel, coordenadora do Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos em Natal e docente do curso de Pedagogia na Estácio, a iniciativa busca atender pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar durante o período regular e chegam à vida adulta com necessidades específicas relacionadas à leitura e escrita. “As atividades são construídas a partir das práticas sociais presentes na realidade dos próprios estudantes. A leitura e a escrita são trabalhadas em situações que fazem parte do cotidiano e a transformação acontece quando o que é aprendido em sala começa a ser levado para outros espaços da vida”, destaca a pedagoga. Leitura e sonhos O aluno Antônio Francisco contou que percebeu, ao ingressar no mercado de trabalho, que o quanto não saber ler poderia limitar os seus caminhos. Atualmente, ele frequenta aulas gratuitas no projeto em dois dias à noite na semana. “Eu tinha muita vontade, pois trabalho na área de construção civil e, para ler projetos, tinha que ter habilidade. E eu vim estudar para aprender. Meu sonho é me tornar engenheiro civil”. Já Joana da Silva, de 66 anos, também aluna do projeto, decidiu estudar para atender a uma vontade antiga. Desde criança, queria frequentar a escola, mas o padrasto não permitia. Mais tarde, trabalhando na agricultura, sem conseguir estudar, decidiu por conta própria tentar escrever, mas ainda encontrava dificuldades para compreender o que lia sozinha. Com a volta à sala de aula, ela conta disse que sentiu um avanço no aprendizado que também no convívio social, superando um quadro de depressão. “Aqui é muito bom para mim, sinto que tem um mundo para conhecer", diz, reforçando que não pretende abrir mão da educação e dos sonhos. “Eu não vou desistir”, completa. Antônio durante aula do programa com a coordenadora Jeanne Maciel Divulgação Independência no dia a dia O desejo de conquistar independência também aparece nas pequenas tarefas do dia a dia. Para quem passou a vida dependendo da ajuda de familiares ou conhecidos para ler documentos e mensagens, aprender a ler pode significar assumir o controle de situações que antes pareciam inacessíveis. O aluno Elnatan Ramos, de 52 anos, é um dos que conhece as dificuldades de viver em um mundo cada vez mais dependente da comunicação escrita. “Quando mandavam mensagem para mim no WhatsApp, eu tinha que pedir para outra pessoa ler”, afirma. No curso de alfabetização, ele busca mudar essa realidade. Joenilde Nunes, de 48 anos, também chegou à sala de aula com desejos de compreender aquilo que via ao seu redor. Ela conta que durante muito tempo teve vergonha de não saber ler, mas que a convivência com os colegas ajudou a mudar esse sentimento. “Eu tinha vergonha, mas quando cheguei aqui e vi que todo mundo é igual, perdi a timidez. E agora, meu maior desejo é escrever correto”. A coordenadora do programa e professora, Jeanne Maciel, reforça que a leitura permite que as pessoas consigam ter mais autonomia nas vidas. “A educação está aqui para transformar justamente essa autonomia no trabalho, em casa ou na rua. Já que eles começam a ter contato com o mundo da leitura, o que nunca tiveram acesso”, diz. Alunos no programa Divulgação
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